A importância da gestão externa de custos.
19-Set-2016 / BLOG

A importância da gestão externa de custos.

Até a década de 1980, parcela significativa das empresas estava inserida em um ambiente caracterizado pela baixa competição, sendo os principais fatores de competitividade a capacidade de trabalhar com grandes volumes de produtos padronizados, reduzindo os custos de produção. Essa redução de custos era possível em função de as empresas terem maior poder de negociação e melhores condições de compra de matéria prima e componentes, e também a possibilidade de diluir seus custos fixos em volumes crescentes. Havia também maior liberdade para reajustar preços quase que de forma automática quando ocorria o aumento de custos, dada a pouca concorrência e ao processo inflacionário. Porém, de forma acentuada, crescente e irreversível, desencadeou-se um processo contínuo de mudanças ambientais que permanece atualmente, ocasionado pela globalização dos mercados. Desde então, o ambiente empresarial deixou de fazer parte de um cenário onde os recursos financeiros eram suficientes e passou a fazer parte de outro, em que o conhecimento, a inovação e a tecnologia são fatores essências para que as empresas mantenham-se competitivas (ZUCKERMAN; ROMOCK; CHEN, 1997, MCNAIR, 2007, e SCHIFF; SCHIFF, 2008).
    Fruto dessa maior integração de mercado, o novo ambiente caracteriza-se pela alta competitividade, sendo quase nulo o espaço para decisões sem avaliações precisas dos riscos envolvidos e, diante dessa realidade, os gestores são desafiados constantemente pela necessidade de tomada de decisões com riscos cada vez maiores e em situações igualmente mais complexas. Esses fatores exigem das organizações a necessidade crescente de obter informações capazes de melhorar o seu processo decisório. Isso fez com que práticas de gestão utilizadas no passado, como por exemplo, as práticas das contabilidades de custos, financeira e gerencial, não sejam mais suficientes para esse fim, sendo necessário um avanço no que se refere às práticas até então adotadas, objetivando adequar-se a nova realidade de mercado.
    Apesar de a contabilidade gerencial oferecer informações relevantes para a tomada de decisões, no que se refere ao ambiente interno da empresa, é reconhecido por diversos pesquisadores (TURNEY; ANDERSON, 1989, PEAVEY, 1990, KAPLAN; JOHNSON, 1996, MCNAIR, 2007) que ocorreram mudanças significativas no âmbito externo, provocando mudanças no ambiente competitivo, sem que essa contabilidade tivesse adequadamente acompanhado as novas demandas informacionais que surgiram como requisito para o eficaz gerenciamento das empresas.
    Toda a pressão oriunda do ambiente externo fez com que empresas, pesquisadores, consultores, entre outros, percebessem que a gestão interna e individual não é mais suficiente, e que surgiu a necessidade de reestruturar os processos de gestão e buscar formas de cooperação com outras empresas dentro da cadeia de valor, com o objetivo de obter ou melhorar a vantagem competitiva.
    A partir desta nova realidade, a gestão dos custos ganhou maior relevância, sendo então reconhecido que, além de estarem apoiadas nas práticas já conhecidas de contabilidade gerencial, as empresas, para manterem-se competitivas, precisam estar apoiadas também no que se convencionou denominar práticas de gestão estratégica de custos (SHANK; GOVINDARAJAN, 1997). Nesse sentido, Slagmulder e Cooper (2003) citam que a gestão estratégica de custos não se resume simplesmente a ações que busquem redução de custos, mas sim a ações que busquem, simultaneamente a isso, melhorar a vantagem competitiva da empresa em termos amplos.
    Bacic (1994) também reconhece que a gestão estratégica de custos tem um enfoque mais amplo que as práticas tradicionais, ou seja, contribui com maior ênfase na análise do ambiente externo, voltando-se também ao desenvolvimento tecnológico, à capacitação de recursos humanos, entre outros, criando vantagens competitivas que perduram a longo prazo.
    Nesse sentido, Cullen e Coad (2006) citam que é importante compreender as ameaças e oportunidades apresentadas pelo meio ambiente, pois essa compreensão permite que os atores organizacionais façam uma análise estratégica delas, criando uma imagem de oportunidades que possam ser aproveitadas para a manutenção da vantagem competitiva, neutralizando possíveis ameaças. De acordo com Costa e Azevedo (2001), a identificação das oportunidades e ameaças pode ser feita por meio da análise SWOT. Esses autores mencionam que o objetivo dessa análise é definir estratégias para que a empresa mantenha seus pontos fortes e diminua a intensidade dos pontos fracos, aproveitando oportunidades e protegendo-se de ameaças provenientes do mercado.
    Da necessidade de maior ênfase na análise do ambiente externo surge também a importância da cooperação entre empresas, visando proporcionar maiores possibilidades em relação à busca de benefícios como, por exemplo, o compartilhamento de informações e a redução de custos na cadeia produtiva. Para estabelecer essas relações com o ambiente externo, é necessário ao gestor entender que cada empresa compõe um dos elos responsáveis pelas atividades geradoras de valor, dentro do contexto global da cadeia.
    A cadeia de valor é definida por Shank e Govindarajan (1997) como sendo um conjunto interligado de atividades que criam valor, desde a fonte básica de matérias-primas até a entrega do produto final ao consumidor. Portanto, por meio das relações externas os gestores devem analisar os elos da cadeia de valor e encontrar soluções para redução de custos e manutenção da vantagem competitiva, pelo planejamento, que resultará em algumas ações isoladas e outras coordenadas entre as empresas, mas sempre com o objetivo de melhoria global da cadeia como um todo. Essas práticas de cooperação devem visar sempre à garantia de retorno para toda a cadeia, seja reduzindo o custo total ou trazendo alguma outra forma de vantagem competitiva.
    Em decorrência disso, as informações e relações com o ambiente externo vêm sendo cada vez mais valorizadas no âmbito da gestão empresarial, sendo importante que a organização tenha acesso a informações apropriadas e oportunas sobre o ambiente competitivo no qual está inserida (SOUZA e ROCHA, 2009; LEITCH et. al, 2006).  Para que o gestor tenha condições de gerenciar com esse enfoque externo, o monitoramento das ações dos concorrentes e a cooperação entre a empresa, concorrentes, fornecedores e clientes, é importante para que se possa criar condições visando obter e/ou manter sua competitividade.
    Além de monitorar seus concorrentes, as empresas podem adotar práticas de cooperação com eles, buscando atingir objetivos mútuos, como, por exemplo, o gerenciamento de compras conjuntas visando à redução de custos. A adoção dessas práticas pode significar um aumento da capacidade de controle sobre o ambiente no qual a empresa está inserida. Tem-se assim que o concorrente pode, em determinadas situações, atuar como parceiro.
    No que se refere às relações com os fornecedores e clientes, as empresas podem estabelecer estratégias que possibilitem administrar conjuntamente seus determinantes de custos, ou seja, realizar uma gestão compartilhada e buscar melhorar sua capacidade competitiva, por exemplo, através do desenvolvimento de novas tecnologias, sugerindo aprimoramento nos processos, estabelecendo metas de redução de custos, entre outros. De acordo com Souza e Rocha (2009), nesse processo cooperativo de gerenciamento de custos, denominado gestão interorganizacional de custos – GIC, as práticas de cooperação podem levar a empresa a criar diferenciais e reduzir custos, tornando toda a cadeia produtiva mais competitiva.
    O reconhecimento dessa nova realidade ambiental e da necessidade de gestão externa compartilhada, também é destacado por Leitch et. al. (2006), quando citam que a concorrência vem forçando as empresas a colaborarem com seus parceiros comerciais. Acrescentam que, para isso, as organizações vêm utilizando a gestão inter-organizacional de custos, com o objetivo de alcançar a gestão colaborativa de custos em toda a cadeia de valor. Leitch et. al. (2006) citam ainda que a gestão de custos, para ser eficaz, deve atravessar os limites organizacionais. Além disso, tem o potencial para melhorar o desempenho de cada empresa, dentro do contexto global da cadeia de valor. Para que isso ocorra, no entanto, é importante compreender os fatores que podem conduzir a gestão de custos, de forma a alcançar os objetivos propostos pela GIC.
    Enfim, existem inúmeras possibilidades para as empresas melhorarem sua vantagem competitiva em relação aos concorrentes. Porém, elas devem inovar, deixando de utilizar apenas as informações originadas dos sistemas de contabilidade gerencial tradicionais, e projetar sistemas de informações que incorporem outros conceitos, como práticas de cooperação, análise do custo dos concorrentes e a GIC, os quais devem estar em sintonia com o ambiente externo, acompanhando as tendências de mercado.

Autor - Scheila Aparecida Santos da Costa Ceolin